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Arteterapia - Magia da Argila

Boqueirão

Modelar com argila significa trabalhar simultaneamente com os 4 elementos da natureza: a terra, o ar, a água e fogo! Pura magia que nos remete a infinitas possibilidades criativas, formas tridimensionais que expressam nossos sentimentos, valores, talentos, dificuldades interiores que emergem para serem trabalhadas com paciência e determinação.

Acrescentamos, sem medo de errar, um 5º elemento, que é o Espiritual, que emana da pessoa que ao manipular a argila por ela também será moldado, uma simbiose poética e de grande significado para o crescimento pessoal, um descobrir de novas possibilidades, um reconhecimento afetivo da sensibilidade que todos possuímos. Há certos momentos que basta tentarmos traduzir em palavras para que se perca toda sua grandeza. Assim acontece ao manipularmos a argila. Profunda sensação de paz e alegria indescritível toma todo nosso ser, quase um retorno aos princípios da vida, com a simplicidade e exuberância de tudo que o Criador nos proporciona, que chamamos de natureza, e da qual fazemos parte. Agora, assumindo um papel de co-criadores, materializamos formas simbólicas de nossos sentimentos e ansiedades mais profundas, de nossos sonhos e fantasias, da alegria e gratidão de viver e conviver com nossos semelhantes e tudo que há em nosso redor. Um momento mágico, sem dúvida!

A argila é um material muito flexível e maleável, favorece a criatividade e estimula o imaginário ao manipulá-lo.

Vejamos a seguir alguns textos expressivos por Arteterapeutas que utilizam também a argila em seus trabalhos, cujas reflexões são altamente significativas.

Para Maria da Glória Gracco Bozza, em Argila Espelho da Auto-Expressão, publicado em “Arte-Terapia: Reflexões”, Revista do Departamento de Arte-Terapia do Instituto Sedes Sapientiae, Ano IV, n. 3, 99/2000, p.14:

“A argila é empregada pelos terapeutas, com o objetivo de romper a armadura protetora que impede os indivíduos de se aproximarem de seus sentimentos, facilitando a solução do que se busca.

”Das criações em argila o profissional passa a explorar, de forma concreta, os conflitos dos indivíduos, que representam a manifestação dos seus conteúdos inconscientes e reprimidos. Esta auto-expressão das dificuldades iminentes favorece seu auxílio emergente.”

Sonia Anastasia Cardoso Durães Saraiva, em sua monografia O Uso do Barro em Arteterapia, 2008, Clínica Pomar, nos traz uma preciosidade em sua forma competente, criativa e acima de tudo muito inspirada:

“A minha experiência pessoal com a argila, desde a época em que eu era aluna de um atelier no Jardim Botânico, onde fiquei por cinco anos, foi de um envolvimento total. Absolutamente prazeroso, instigante e criativo. Lembro-me até hoje da sensação que tive ao ver a minha primeira peça pronta e já queimada. Era um pote para lápis feito em cobrinha. Fiquei muito emocionada de ver que havia feito um objeto. Algo concreto, construído com as minhas mãos, eu havia criado e, ele estava ali, pronto. Pertencia-me por inteiro ao mesmo tempo em que havia sido colocado por mim no mundo. Sou capaz de criar algo! Era feio, mal feito, mas não importava. A estética não pesou de imediato na minha avaliação. Ali, então, cresceu minha auto-estima.

“Depois, comecei a perceber que não via o tempo passar enquanto manuseava o barro. Eu me abstraia do mundo. Além do prazer de concretizar algo, havia o prazer do contato com a argila, plástica, maleável, que podia ser feita e refeita, quantas vezes fossem necessárias, bastava acrescentar um pouquinho de água, e ela, com suas exigências atendidas, cederia à minha vontade. Eu aceitava as suas imposições e ela se abandonava em minhas mãos para que eu concretizasse a imagem que tinha na mente. E quantas vezes aquela primeira imagem ia se modificando na medida que o processo continuava, fazendo ver que de outra forma seria melhor, e assim, outra imagem mental se formava, e este diálogo com o barro, de aceitação e cumplicidade, de troca, se desenrolava na atividade aonde a expressão vinha não só de mim, mas do barro também.

“Quanta coisa foi se transformando em mim. A rigidez, a onipotência, a aceitação, a interiorização e o silêncio interno que se fazia necessário para que esta troca se realizasse. Cada técnica de modelagem se adequando a um momento interno. A cobrinha, por exemplo, trabalhava a minha paciência, a minha relação com o tempo. Sempre tive a sensação e sonhos que me diziam que estava atrasada, que não chegaria a tempo, mil circunstâncias sempre me desviando da concretização do meu objetivo. (grifos meus)

“E a sensação de perda quando uma peça se rachava na secagem, ou estourava dentro do forno, no biscoitar. Aquele filho que se foi, contra a sua vontade, independente da sua vontade, incontrolável, fugindo de suas mãos, do seu domínio. E lidar com isso? Trabalhar o desapego, o fluir.

“E a pintura? O esmalte que escorre deixando marcas de fluidez. As cores que transmitem sensações e que por várias vezes me surpreenderam com a transformação da peça. As possibilidades de adorno que vem trazer leveza ou peso, luz ou sombras, texturas diversas, mostrando o seu estado de espírito ou modificando-o.

“A surpresa da queima. A transformação das cores dentro do forno. A magia exercida pelo calor. As queimas primitivas, rústicas, que nos deixam antever marcas feitas pelo próprio tempo que passou. Marcas doidas, escuras, fundas. Marcas fluidas, harmoniosas, luminosas. E os rasgos feitos na argila, como que saídos do âmago do ser, partido, dilacerado, mas no concreto, bonito porque vivência posta para fora, cicatrizada. O Raku, craquelado, mas inteiro, sem perder nenhum dos seus caquinhos, todos como se tivessem sido montados como num quebra cabeça que traz aquela satisfação do completar, do terminar! (Raku: Raku é uma técnica/forma de cozedura e pós cozedura de peças cerâmicas que envolve uma posterior "queima" das peças.Fonte Wikipedia)

“Percebendo a potencialidade terapêutica da cerâmica, o quanto as pessoas podem ser beneficiadas através da expressão artística, senti necessidade de me aprofundar nessa questão. Tudo que vinha fazendo até então, de forma dispersa, ora focando a arte, ora a psicologia, encontrei a possibilidade de reunir na Arteterapia. A idéia de poder fazer uso terapêutico da cerâmica, me levou ao curso de Pós Graduação que iniciei em 2006, na Clínica Pomar.

“Esta minha vivência me levou a escolher O Uso do Barro em Arteterapia, como tema da minha monografia, pois que, mesmo antes de começar meus estudos na área, já tinha comprovado pessoalmente a eficácia do trabalho cerâmico, num atendimento terapêutico. Através de pesquisas e do estudo, pude constatar, teoricamente, que os fundamentos arteterapêuticos se encaixam com suavidade e presteza no decorrer da experiência no processo cerâmico.”

Janie Rhyne, em seu clássico livro “Arte e Gestalt Padrões que convergem”, São Paulo: Summus, 2000, 2ª. Edição, p.180, p.181, Criando sua própria imagem:

”Agora, sugiro que você incorpore algumas das suas sensações sinestésicas para criar em argila uma imagem de como se percebe. De novo, antes que comece, peço que ponha de lado, tanto quanto puder, quaisquer conceitos de como você deve ser, como teme ser, como quer ser; especialmente não pense em como os outros o vêem e o que você vê quando se olha no espelho.

”Para fazer isso, coloque sua confiança nas mãos; deixe sua energia fluir por elas; pegue quanta argila puder segurar com as mãos; sente em silêncio por um instante, segurando a argila nas mãos; feche os olhos e fique tranqüilo e receptivo ao seu eu interior.

”Sinta a maleabilidade da argila, passiva por natureza; as suas mãos são ativas. Deixe a atividade de suas mãos modelar a argila experimentalmente; explore como pode mudar a forma e a superfície da argila – esprema, amasse, alise, quebre, cinzele, corte, fure, torne áspero, acaricie.

”Não julgue suas ações: não as force nem as restrinja – apenas sinta o que está sentindo. Mergulhe em uma fantasia, num estado de sonho, num jogo – o que for melhor para você – e diga a si mesmo: `Este pedaço de argila sou eu. Estou criando a mim mesmo.’

”Mantenha os olhos fechados e fique com seus sentimentos; sinta através das mãos como você pode expressar simbolicamente a argila o que faz consigo mesmo na realidade. Se sente formas e texturas que evoquem uma consciência emocional da realidade que está fazendo, continue o padrão da modelagem; se sentir que uma imagem está surgindo, mude seu canto para `Este sou eu. Eu sou.’

”Deixe sua imagem mudar e crescer enquanto sentir que para você ela é curta. Quando quiser, abra os olhos e contate sua imagem com os olhos. Fique em contato com sua visão e seu toque e qualquer ressonância emocional entre a sua imagem e você mesmo.

” Confie em sua intuição ao receber a mensagem que você tornou visível e concreta; permita-se algum tempo e silêncio para contemplação; deixe suas interpretações virem a você pelos sentidos da visão, tato e associações com símbolos da realidade.

”Não tente encaixar suas interpretações em nenhum sistema usado pelos outros. Você não precisa ser sistemático nem explanatório. Basta que você possa aceitar sua auto-imagem criada com uma simples consciência de ‘Este sou eu, Eu sou.’

”Se você está com outros e quer lhes falar sobre sua experiência e sua imagem, faça-o descrevendo com simplicidade; se não quiser usar palavras, permita que olhar sua imagem seja suficiente, tanto para você quanto para outros. Esse tipo introspectivo de experiência com arte pode ser uma forma de meditação.

”A criação de nossas próprias imagens é um meio de entrar em contato com nossos sentimentos de auto-identificação e, com freqüência, usamos imagens como referentes ao nos comunicarmos uns com os outros; elas funcionam como pontes entre nós, tornando fáceis e naturais algumas trocas de confidências que seriam muito difíceis sem a presença da imagem – uma imagem que preencha espaços que as palavras não podem expressar.”